Trechos do discurso que o Papa Francisco proferiu em Santa
Cruz de la Sierra ao concluiu o II Encontro dos Movimento Populares.
Boa tarde a todos!
Há alguns meses, reunimo-nos em Roma e não esqueço aquele
nosso primeiro encontro. Em Roma, senti algo muito belo: fraternidade, paixão,
entrega, sede de justiça. Hoje, em Santa Cruz de la Sierra, volto a sentir o
mesmo. Obrigado! Soube também, pelo Pontifício Conselho «Justiça e Paz»
presidido pelo Cardeal Turkson, que são muitos na Igreja aqueles que se sentem
mais próximos dos movimentos populares. Muito me alegro por isso! Ver a Igreja
com as portas abertas a todos vós, que se envolve, acompanha e consegue
sistematizar em cada diocese, em cada comissão «Justiça e Paz», uma colaboração
real, permanente e comprometida com os movimentos populares. Convido-vos a
todos, bispos, sacerdotes e leigos, juntamente com as organizações sociais das
periferias urbanas e rurais a aprofundar este encontro.
A Bíblia lembra-nos que Deus escuta o clamor do seu povo e
também eu quero voltar a unir a minha voz à vossa: terra, teto e trabalho para
todos os nossos irmãos e irmãs. Disse-o e repito: são direitos sagrados. Vale a
pena, vale a pena lutar por eles. Que o clamor dos excluídos seja escutado na
América Latina e em toda a terra.
Comecemos por reconhecer que precisamos duma mudança. Quero esclarecer,
para que não haja mal-entendidos, que falo dos problemas comuns de
todos os latino-americanos e, em geral, de toda a humanidade. Problemas, que
têm uma matriz global e que atualmente nenhum Estado pode resolver por si
mesmo. Feito este esclarecimento, proponho que nos coloquemos estas perguntas:
- Reconhecemos nós que as coisas não andam
bem num mundo onde há tantos camponeses sem terra, tantas famílias sem teto,
tantos trabalhadores sem direitos, tantas pessoas feridas na sua dignidade?
- Reconhecemos nós que as coisas não andam
bem, quando explodem tantas guerras sem sentido e a violência fratricida se
apodera até dos nossos bairros?
- Reconhecemos nós que as coisas não andam
bem, quando o solo, a água, o ar e todos os seres da criação estão sob ameaça
constante?
Então digamo-lo sem medo:
Precisamos e queremos uma mudança.
Nas vossas cartas e nos nossos encontros, relataram-me as
múltiplas exclusões e injustiças que sofrem em cada atividade laboral, mas há
um elo invisível que une cada uma destas exclusões: conseguimos nós reconhecê-lo? Pergunto-me
se somos capazes de reconhecer que estas realidades destrutivas correspondem a
um sistema que se tornou global.
- Reconhecemos nós que este sistema impôs a
lógica do lucro a todo o custo, sem pensar na exclusão social nem na destruição
da natureza?
O serviço ao bem comum fica em segundo plano. Quando o
capital se torna um ídolo e dirige as opções dos seres humanos, quando a avidez
do dinheiro domina todo o sistema socioeconômico, arruína a sociedade, condena
o homem, transforma-o em escravo, destrói a fraternidade inter-humana, faz
lutar povo contra povo e até, como vemos, põe em risco esta nossa casa comum.
- Que posso fazer eu... se mal ganho para
comer? se não tenho sequer direitos laborais? que sou diariamente discriminado
e marginalizado?
Muito! Podem fazer muito. Vós, os mais humildes, os explorados, os pobres e
excluídos, podeis e fazeis muito. Atrevo-me a dizer que o futuro da humanidade
está, em grande medida, nas vossas mãos, na vossa capacidade de vos organizar e
promover alternativas criativas na busca diária dos “3 T” (trabalho, teto,
terra), e também na vossa participação como protagonistas nos grandes processos
de mudança nacionais, regionais e mundiais. Não se acanhem!
“Processo de mudança”
Sabemos, amargamente, que uma mudança de estruturas, que não
seja acompanhada por uma conversão sincera das atitudes e do coração, acaba a
longo ou curto prazo por burocratizar-se, corromper-se e sucumbir. Por isso
gosto tanto da imagem do processo, onde a paixão por semear, por regar
serenamente o que outros verão florescer, substitui a ansiedade de ocupar todos
os espaços de poder disponíveis e de ver resultados imediatos. Cada um de nós é
apenas uma parte de um todo complexo e diversificado interagindo no tempo:
povos que lutam por uma afirmação, por um destino, por viver com dignidade, por
«viver bem».
A partir destas sementes de esperança semeadas pacientemente
nas periferias esquecidas do planeta, destes rebentos de ternura que lutam por
subsistir na escuridão da exclusão, crescerão grandes árvores, surgirão bosques
densos de esperança para oxigenar este mundo.
Vós sois semeadores de mudança. Que Deus vos dê coragem, alegria, perseverança e
paixão para continuar a semear. Podeis ter a certeza de que, mais cedo ou mais
tarde, vamos ver os frutos. Peço aos dirigentes: sede criativos e nunca percais
o apego às coisas próximas, porque o pai da mentira sabe usurpar palavras
nobres, promover modas intelectuais e adotar posições ideológicas, mas se
construirdes sobre bases sólidas, sobre as necessidades reais e a experiência
viva dos vossos irmãos, dos camponeses e indígenas, dos trabalhadores excluídos
e famílias marginalizadas, de certeza não vos equivocareis.
A Igreja não pode nem deve ser alheia a este processo no
anúncio do Evangelho. Muitos sacerdotes e agentes pastorais realizam uma tarefa
imensa acompanhando e promovendo os excluídos em todo o mundo, ao lado de
cooperativas, dando impulso a empreendimentos, construindo casas, trabalhando
abnegadamente nas áreas da saúde, desporto e educação. Estou convencido de que
a cooperação amistosa com os movimentos populares pode robustecer estes
esforços e fortalecer os processos de mudança.
No coração, tenhamos sempre a Virgem Maria, uma jovem
humilde duma pequena aldeia perdida na periferia dum grande império, uma mãe
sem teto que soube transformar um curral de animais na casa de Jesus com uns
pobres paninhos e uma montanha de ternura. Maria é sinal de esperança para os
povos que sofrem dores de parto até que brote a justiça. Rezo à Virgem do
Carmo, padroeira da Bolívia, para fazer com que este nosso Encontro seja
fermento de mudança.
- Gostaria de vos propor três grandes
tarefas que requerem a decisiva contribuição do conjunto dos movimentos
populares:
A primeira tarefa é pôr a economia ao
serviço dos povos.
Os seres humanos e a natureza não devem estar ao serviço do
dinheiro. Digamos NÃO a uma economia de exclusão e desigualdade, onde o
dinheiro reina em vez de servir. Esta economia mata. Esta economia exclui. Esta
economia destrói a Mãe Terra.
Uma economia justa deve criar as condições para que cada
pessoa possa gozar duma infância sem privações, desenvolver os seus talentos
durante a juventude, trabalhar com plenos direitos durante os anos de atividade
e ter acesso a uma digna aposentação na velhice. É uma economia onde o ser
humano, em harmonia com a natureza, estrutura todo o sistema de produção e
distribuição de tal modo que as capacidades e necessidades de cada um encontrem
um apoio adequado no ser social. Vós - e outros povos também - resumis este
anseio duma maneira simples e bela: «viver bem».
Esta economia é não apenas desejável e necessária, mas
também possível. Não é uma utopia, nem uma fantasia. É uma perspectiva
extremamente realista. Podemos consegui-la. Os recursos disponíveis no mundo,
fruto do trabalho intergeneracional dos povos e dos dons da criação, são mais
que suficientes para o desenvolvimento integral de «todos os homens e do homem
todo». A justa distribuição dos frutos da terra e do trabalho humano não é mera
filantropia. É um dever moral. Para os cristãos, o encargo é ainda mais forte:
é um mandamento.
A segunda tarefa é unir os nossos povos
no caminho da paz e da justiça.
Os povos do mundo querem ser artífices do seu próprio
destino. Querem caminhar em paz para a justiça. Não querem tutelas nem
interferências, onde o mais forte subordina o mais fraco. Querem que a sua
cultura, o seu idioma, os seus processos sociais e tradições religiosas sejam
respeitados. Nenhum poder efetivamente constituído tem direito de privar os
países pobres do pleno exercício da sua soberania e, quando o fazem, vemos
novas formas de colonialismo que afetam seriamente as possibilidades de paz e
justiça, porque «a paz funda-se não só no respeito pelos direitos do homem, mas também no
respeito pelo direito dos povos, sobretudo o direito à independência».
É necessário manter a unidade contra toda a tentativa de
divisão, para que a região cresça em paz e justiça. O novo colonialismo assume
variadas fisionomias. Às vezes, é o poder anónimo do ídolo dinheiro: corporações,
credores, alguns tratados denominados «de livre comércio» e a imposição de
medidas de «austeridade» que sempre apertam o cinto dos trabalhadores e dos
pobres. Os bispos latino-americanos denunciam-no muito claramente, no documento
de Aparecida, quando afirmam que «as instituições financeiras e as empresas
transnacionais se fortalecem ao ponto de subordinar as economias locais,
sobretudo debilitando os Estados, que aparecem cada vez mais impotentes para
levar adiante projetos de desenvolvimento a serviço de suas populações».
Da mesma forma, a concentração monopolista dos meios de
comunicação social que pretende impor padrões alienantes de consumo e certa
uniformidade cultural é outra das formas que adota o novo colonialismo. É o
colonialismo ideológico. Como dizem os bispos da África, muitas vezes
pretende-se converter os países pobres em «peças de um mecanismo, partes de uma
engrenagem gigante».
Temos de reconhecer que nenhum dos graves problemas da
humanidade pode ser resolvido sem a interação dos Estados e dos povos a nível
internacional. Qualquer ato de envergadura realizado numa parte do Planeta
repercute-se no todo em termos econômicos, ecológicos, sociais e culturais. Até
o crime e a violência se globalizaram. Por isso, nenhum governo pode atuar à
margem duma responsabilidade comum. Se queremos realmente uma mudança positiva,
temos de assumir humildemente a nossa interdependência. Mas interação não é sinônimo de imposição, não é subordinação de uns em função dos interesses dos outros. O colonialismo, novo e velho, que reduz os países pobres a meros
fornecedores de matérias-primas e mão de obra barata, gera violência, miséria,
emigrações forçadas e todos os males que vêm juntos... precisamente porque, ao
pôr a periferia em função do centro, nega-lhes o direito a um desenvolvimento
integral. Isto é desigualdade, e a desigualdade gera violência que nenhum
recurso policial, militar ou dos serviços secretos será capaz de deter.
Digamos NÃO às velhas e novas formas de colonialismo.
Digamos SIM ao encontro entre povos e culturas. Bem-aventurados os que
trabalham pela paz.
Aqui quero deter-me num tema
importante. É que alguém poderá, com direito, dizer: «Quando o Papa fala de colonialismo,
esquece-se de certas ações da Igreja». Com pesar, vo-lo digo: Cometeram-se
muitos e graves pecados contra os povos nativos da América, em nome de Deus.
Reconheceram-no os meus antecessores, afirmou-o o CELAM e quero reafirmá-lo eu
também. Como São João Paulo II, peço que a Igreja «se ajoelhe diante de Deus e
implore o perdão para os pecados passados e presentes dos seus filhos». E eu quero dizer-vos, quero ser muito claro,
como foi São João Paulo II: Peço humildemente perdão, não só para as ofensas da
própria Igreja, mas também para os crimes contra os povos nativos durante a
chamada conquista da América. E junto, junto a este pedido de perdão e para ser
justo, também quero que recordemos os milhares de sacerdotes, bispos, que se
opuseram fortemente à lógica da espada, com a força da cruz. Houve pecado,
houve pecado e abundante, e por isto pedimos perdão, e peço perdão, porém
também alí, onde teve pecado, onde abundou o pecado, superabundou a graça
através destes homens que defenderam a justiça dos povos originários. Peço-vos
também a todos, crentes e não crentes, que se recordem de tantos bispos,
sacerdotes e leigos que pregaram e pregam a boa nova de Jesus com coragem e
mansidão, respeito e em paz - disse bispos, sacerdotes e leigos, mas não quero
esquecer das religiosas que anonimamente percorrem nossos bairros pobres
levando uma mensagem de paz e de bem - que, na sua passagem por esta vida,
deixaram impressionantes obras de promoção humana e de amor, pondo-se muitas
vezes ao lado dos povos indígenas ou acompanhando os próprios movimentos
populares mesmo até ao martírio. A Igreja, os seus filhos e filhas, fazem parte
da identidade dos povos na América Latina. Identidade que alguns poderes, tanto
aqui como noutros países, se empenham por apagar, talvez porque a nossa fé é
revolucionária, porque a nossa fé desafia a tirania do ídolo dinheiro. Hoje
vemos, com horror, como no Médio Oriente e noutros lugares do mundo se
persegue, tortura, assassina a muitos irmãos nossos pela sua fé em Jesus. Isto também
devemos denunciá-lo: dentro desta terceira guerra mundial em parcelas que
vivemos, há uma espécie de genocídio em curso que deve cessar. Aos irmãos e
irmãs do movimento indígena latino-americano, deixem-me expressar a minha mais
profunda estima e felicitá-los por procurarem a conjugação dos seus povos e
culturas segundo uma forma de convivência, a que eu chamo poliédrica, onde as
partes conservam a sua identidade construindo, juntas, uma pluralidade que não
atenta contra a unidade, mas fortalece-a. A sua procura desta
interculturalidade que conjuga a reafirmação dos direitos dos povos nativos com
o respeito à integridade territorial dos Estados enriquece-nos e fortalece-nos
a todos.
A terceira tarefa, e talvez a mais
importante que devemos assumir hoje, é defender a Mãe Terra.
A casa comum de todos nós está a ser saqueada, devastada,
vexada impunemente. A covardia em defendê-la é um pecado grave. Vemos, com
crescente decepção, sucederem-se uma após outra cimeiras internacionais sem
qualquer resultado importante. Existe um claro, definitivo e inadiável
imperativo ético de atuar que não está a ser cumprido. Não se pode permitir que
certos interesses - que são globais, mas não universais - se imponham,
submetendo Estados e organismos internacionais, e continuem a destruir a
criação. Os povos e os seus movimentos são chamados a clamar, mobilizar-se,
exigir - pacífica mas tenazmente - a adoção urgente de medidas apropriadas.
Peço-vos, em nome de Deus, que defendais a Mãe Terra. Sobre este assunto,
expressei-me devidamente na carta encíclica Laudato si’.
O futuro da humanidade não está unicamente nas mãos dos
grandes dirigentes, das grandes potências e das elites. Está fundamentalmente
nas mãos dos povos; na sua capacidade de se organizarem e também nas suas mãos
que regem, com humildade e convicção, este processo de mudança. Estou convosco.
Digamos juntos do fundo do coração: nenhuma família sem teto, nenhum camponês
sem terra, nenhum trabalhador sem direitos, nenhum povo sem soberania, nenhuma
pessoa sem dignidade, nenhuma criança sem infância, nenhum jovem sem
possibilidades, nenhum idoso sem uma veneranda velhice. Continuai com a vossa
luta e, por favor, cuidai bem da Mãe Terra. Rezo por vós, rezo convosco e quero
pedir a nosso Pai Deus que vos acompanhe e abençoe, que vos cumule do seu amor
e defenda no caminho concedendo-vos, em abundância, aquela força que nos mantém
de pé: esta força é a esperança, a esperança que não decepciona. Obrigado! E
peço-vos, por favor, que rezeis por mim.
Fique com Deus e
sob a proteção da Sagrada Família
Ricardo Feitosa e Marta Lúcia
Crendo e ensinando o que crê e ensina a
Santa Igreja Católica
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