A Campanha da Fraternidade nasceu por iniciativa de Dom
Eugênio de Araújo Sales, em Nísia Floresta, Arquidiocese de Natal, RN, como
expressão da caridade e da solidariedade em favor da dignidade da pessoa
humana, dos filhos e filhas de Deus.
Assumida pelas Igrejas Particulares da Igreja no Brasil, a
Campanha da Fraternidade tornou-se expressão de comunhão, conversão e partilha.
Comunhão na busca de construir uma verdadeira fraternidade; conversão na
tentativa de deixar-se transformar pela vida fecundada pelo Evangelho; partilha
como visibilização do Reino de Deus que recorda a ação da fé, o esforço do
amor, a constância na esperança em Cristo Jesus (Cf. 1Ts 1,3).
Objetivos permanentes da
Campanha da Fraternidade
1. Despertar
o espírito comunitário e cristão no povo de Deus, comprometendo, em particular,
os cristãos na busca do bem comum;
2. Educar
para a vida em fraternidade, a partir da justiça e do amor, exigência central
do Evangelho;
3. Renovar
a consciência da responsabilidade de todos pela ação da Igreja na
evangelização, na promoção humana, em vista de uma sociedade justa e solidária
(todos devem evangelizar e todos devem sustentar a ação evangelizadora e
libertadora da Igreja).
A coleta da Campanha realizada como um dos gestos concretos
de conversão quaresmal tem realizado um bem imenso no cuidado para com os
pobres.
Ao percorrermos o itinerário da Campanha que nossos irmãos
nos prepararam, possamos continuar seguindo Cristo, caminho, verdade e vida
(Cf. Jo 14,6).
A alegria pela IV Campanha
da Fraternidade Ecumênica - CFE
As Igrejas que integram o Conselho Nacional de Igrejas Cristãs
do Brasil (CONIC) assumem como missão expressar em gestos e ações o mandato
evangélico da unidade, que diz: “Que todos sejam um, como tu, Pai, estás em mim
e eu em ti; que também eles estejam em nós, a fi m de que o mundo creia que tu
me enviaste” ( Jo 17,21).
O testemunho ecumênico coloca-se na contramão de todo tipo
de competição e de proselitismo, tão frequentes no contexto religioso. É uma
clara manifestação de que o diálogo e o testemunho conjunto são possíveis. É um
apelo dirigido a todas as pessoas religiosas e de boa vontade para que
contribuam com as suas capacidades para a promoção da convivência, da justiça,
da paz e do cuidado com a criação. É, também, uma comprovação de que Igrejas
irmãs são capazes de repartir dons e recursos na sua missão.
A caminhada ecumênica realizada pelo CONIC tem mais de três
décadas. É uma trajetória marcada por fraternidade, confiança, parceria e
protagonismo. Dessa trajetória, podem ser destacados como expressões concretas
de comunhão fraterna as três Campanhas da Fraternidade Ecumênicas, realizadas
nos anos 2000, 2005 e 2010. Todas elas marcaram profundamente a vida das
Igrejas que nelas se envolveram.
A motivação para essas Campanhas fundamentou-se na
compreensão de que, no centro da vivência ecumênica, está a fé em Jesus Cristo.
Isso se deu, porque o movimento ecumênico está marcado pela ação e pelo desafio
de construir uma Casa Comum (oikoumene) justa, sustentável e habitável para
todos os seres vivos. Essa luta é profética, pois questiona as estruturas que
causam e legitimam vários tipos de exclusão: econômica, ambiental, social,
racial e étnica. São discriminações que fragilizam a dignidade de mulheres e
homens.
É exatamente isso que acontece quando, neste ano, a
Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) coloca outra vez à disposição
do CONIC a Campanha da Fraternidade, seu mais conhecido projeto de
evangelização.
Com esse espírito, no ano 2000, na virada do milênio e no
contexto do Grande Jubileu, foi realizada a primeira Campanha da Fraternidade
Ecumênica com o tema “Dignidade humana e paz” e com o lema “Novo milênio sem
exclusões”. No ano de 2005, foi realizada a segunda Campanha da Fraternidade
Ecumênica. O tema foi “Solidariedade e paz” e o lema “Felizes os que promovem a
paz”. A Campanha Ecumênica de 2010 provocou o debate sobre o papel da economia
na sociedade. O tema foi “Economia e vida”, aprofundado com o lema bíblico
“Vocês não podem servir a Deus e ao Dinheiro” (Mt 6,24c).
A Campanha da Fraternidade Ecumênica de 2016 apresenta o
tema “Casa Comum, nossa responsabilidade” e tem como lema “Quero ver o direito
brotar como fonte e correr a justiça qual riacho que não seca” (Am 5,24). O
objetivo principal é assegurar o direito ao saneamento básico para todas as
pessoas e empenharmo-nos, à luz da fé, por políticas públicas e atitudes
responsáveis que garantam a integridade e o futuro de nossa Casa Comum.
Nesse tema e nesse lema, duas dimensões básicas para a
subsistência da vida são abarcadas a um só tempo: o cuidado com a criação e a
luta pela justiça, sobretudo dos países pobres e vulneráveis. Nessa Campanha da
Fraternidade Ecumênica, queremos instaurar processos de diálogo que contribuam
para a reflexão crítica dos modelos de desenvolvimento que têm orientado a
política e a economia. Faremos essa reflexão a partir de um problema específico
que afeta o meio ambiente e a vida de todos os seres vivos, que é a fragilidade
e, em alguns lugares, a ausência dos serviços de saneamento básico em nosso
país.
Perguntamos: como estão estruturadas as nossas cidades? Quem
realmente tem acesso ao saneamento básico? No ano de 2014, o sudeste do Brasil
viveu uma das maiores crises hídricas já registradas na história recente do
país. Quem foi responsabilizado por isso? Por que os serviços de saneamento
básico, considerados como direito humano básico pela Organização das Nações
Unidas, estão em disputa?
Com essa CFE colocamo-nos em sintonia com o Conselho Mundial
de Igrejas e também com o Papa Francisco. Ambos têm chamado a atenção para o
fato de que o atual modelo de desenvolvimento está ameaçando a vida e o
sustento de muitas pessoas, em especial as mais pobres. É um modelo que destrói
a biodiversidade. A perspectiva ecumênica aponta para a necessidade de união
das igrejas diante dessa questão. Nossa Casa Comum está sendo ameaçada. Não
podemos, portanto, ficar calados. Deus nos convoca para cuidar da sua criação.
Promover a justiça climática, assumir nossas responsabilidades pelo cuidado com
a Casa Comum e denunciar os pecados que ameaçam a vida no planeta é a missão
confi ada por Deus a cada um e cada uma de nós.
É uma alegria compartilhar que nessa CFE, além das cinco
igrejas que integram o CONIC, somaram forças também: a Aliança de Batistas do
Brasil, o Centro Ecumênico de Serviços à Evangelização e Educação Popular
(CESEEP) e a Visão Mundial. Outra novidade é que a IV Campanha da Fraternidade
Ecumênica será internacional, porque a Misereor, organização dos bispos
católicos alemães para a cooperação e o desenvolvimento, integrou-se nesse
mutirão. Nossa oração e desejo é que mais igrejas e religiões entrem nessa
caminhada.
Uma Campanha da
Fraternidade Ecumênica que cruza fronteiras
Desde o ano de 1958, a Misereor realiza junto às comunidades
católicas da Alemanha a Campanha de Quaresma. Esta Campanha é uma expressão
concreta da comunhão e da solidariedade da Igreja no mundo inteiro. Ao longo de
sua história, a Misereor contribuiu para fortalecer a voz dos povos do Sul, que
lutam e buscam caminhos que possam conduzir ao bem-viver todos os homens e
todas as mulheres.
Acolher a Misereor como irmã de caminhada na IV CFE
significa assumir que a cooperação para o desenvolvimento vai além de alguma
ajuda pontual para algum grupo específico. Desde uma perspectiva de fé,
significa também assumir a responsabilidade comum pelo futuro da Terra.
Ao unirem-se nessa IV CFE, CONIC e Misereor experimentam uma
nova forma de cooperação. A concepção que orienta essa parceria é que os
grandes desafios do futuro, em especial aqueles relacionados aos direitos
humanos e à justiça climática, não podem ser enfrentados e muito menos
resolvidos por um país sozinho. É necessário que essa responsabilidade seja
assumida ecumenicamente, indo além das fronteiras geográficas e confessionais.
O Brasil e a Alemanha são países econômica e culturalmente
diferentes. A partir dessas diferenças, entendemos que nossas responsabilidades
são comuns, porém diferenciadas. A IV CFE será um exercício de experimentar
essa unidade na diversidade. É por isso que na Alemanha o foco principal da
Campanha será o “Direito e justiça”, enfatizando que os direitos humanos,
econômicos, sociais e culturais são inegociáveis. Nesses direitos estão
presentes o acesso à água potável e ao saneamento básico.
O ano de 2015 foi de intenso debate sobre as mudanças
climáticas. No contexto de preparação para a Conferência do Clima, promovida
pelas Organizações das Nações Unidas (ONU), foram realizados vários espaços de
reflexão e reivindicação por justiça ambiental. Duas ações expressam o
comprometimento das igrejas com a justiça climática. A primeira delas é o
chamado do Conselho Mundial de Igrejas (CMI) à “Peregrinação por justiça e paz”
que denuncia a ação destrutiva do atual modelo de desenvolvimento, os mais
afetados são os mais pobres. A “Peregrinação por justiça e paz” destaca a
necessidade urgente da superação desse modelo de desenvolvimento que está
baseado no consumo e na ganância.
A segunda ação é a Encíclica do Papa Francisco Laudato Sí’:
sobre o cuidado da Casa Comum. Essa encíclica é a voz profética que clama para
que assumamos o desafio de proteger a Casa Comum unindo-nos por um
desenvolvimento sustentável e integral.
A ONU reconhece o papel imprescindível das religiões para a
promoção de mudança de valores no que diz respeito ao meio ambiente. Ao nos
unirmos como igrejas de dois países tão diferentes, estamos assumindo a
responsabilidade comum em favor da criação.
Na Alemanha, a dimensão ecumênica não estará ausente. Ela
será fortalecida pela Prece Ecumênica para a Campanha da Quaresma. Essa prece
foi elaborada de forma conjunta por Misereor, organização católica, Pão Para o
Mundo e organização luterana, com participação do CONIC. A oração expressa a
urgência de assumirmos a responsabilidade do cuidado com a Casa Comum: Deus,
justo e misericordioso, a Tua Terra, nossa Casa Comum, está em um estado
deplorável. Milhões de pessoas sofrem com a fome. Em muitos lugares, o direito
à moradia, à água e ao saneamento básico, o direito à autodeterminação
econômica, social e cultural é largamente desrespeitado. Estas realidades são
difíceis de suportar. Assustam-nos. Fechamos os olhos e a sensação de que “não
há nada que eu possa fazer” é forte. Paralisa-nos. Queremos sair dessa
armadilha. Queremos acolher o dom da Tua Criação e assumir a responsabilidade
por ela. Por isso, necessitamos da Tua ajuda e Te rogamos: Que o cuidado para
com a nossa Casa Comum nos dê uma voz forte para denunciar todas as formas
abusivas de exploração econômica. Que o saneamento básico e a água potável
limpa se tornem acessíveis para todos os cidadãos e todas as cidadãs. Que Tu fortaleças
a nossa esperança, para que o direito e a justiça virem realidade. Que nós,
teus filhos e tuas filhas, sejamos profetas, preparemos o caminho para o Bem
Viver e que estabeleçamos, através das nossas palavras e das nossas ações,
relações dignas entre as pessoas, para com a Criação e para contigo, Deus.
Amém!
E por que discutir sobre
saneamento básico no Brasil?
Como já dissemos, o abastecimento de água potável, o esgoto
sanitário, a limpeza urbana, o manejo de resíduos sólidos, o controle de meios
transmissores de doenças e a drenagem de águas pluviais são medidas necessárias
para que todas as pessoas possam ter saúde e vida dignas.
A combinação do acesso à água potável e ao esgoto sanitário
é condição para se obter resultados satisfatórios também na luta para a
erradicação da pobreza e da fome, para a redução da mortalidade infantil e pela
sustentabilidade ambiental. Há que se ter em mente que “justiça ambiental” é
parte integrante da “justiça social”.
Segundo o relatório “Progresso no Saneamento e Água Potável
- Atualização e Avaliação dos ODMs 2015”1 da UNICEF e da Organização Mundial de
Saúde (OMS), 2,4 bilhões de pessoas ficaram sem acesso ao saneamento melhorado
no ano de 2015.
O Índice de Desenvolvimento do Saneamento no Brasil foi de
0,581. Essa posição é inferior aos países desenvolvidos, mesmo frente a vários
países da América do Sul.
Muito embora tenhamos uma lei que estabelece as diretrizes
nacionais para o saneamento básico, este tema permanece um dos grandes desafios
para a qualidade de vida de todas as pessoas.
A responsabilidade pela Casa Comum é de todos, dos
governantes e da população. As comunidades cristãs são convocadas por esta
Campanha da Fraternidade Ecumênica a mobilizar em todos os municípios grupos de
pessoas para reclamar a elaboração de Planos de Saneamento Básico e exercer o
controle social sobre as ações de sua execução.
Essa ação será orientada pelo tema da CFE “Casa Comum, nossa
responsabilidade” e inspirada e iluminada pelo lema “Quero ver o direito brotar
como fonte e correr a justiça qual riacho que não seca” (Am 5,24). Para tanto,
assumimos os seguintes objetivos:
Objetivo geral:
Assegurar o direito ao saneamento básico para todas as
pessoas e empenharmo-nos, à luz da fé, por políticas públicas e atitudes
responsáveis que garantam a integridade e o futuro de nossa Casa Comum.
Objetivos específicos:
1. Unir
igrejas, diferentes expressões religiosas e pessoas de boa vontade na promoção
da justiça e do direito ao saneamento básico;
2. Estimular
o conhecimento da realidade local em relação aos serviços de saneamento básico;
3. Incentivar
o consumo responsável dos dons da natureza, principalmente da água;
4. Apoiar
e incentivar os municípios para que elaborem e executem o seu Plano de Saneamento
Básico;
5. Acompanhar
a elaboração e a excussão dos Planos Municipais de Saneamento Básico;
6. Desenvolver
a consciência de que políticas públicas na área de saneamento básico apenas
tornar-se-ão realidade pelo trabalho e esforço em conjunto;
7. Denunciar
a privatização dos serviços de saneamento básico, pois eles devem ser política
pública como obrigação do Estado;
8. Desenvolver
a compreensão da relação entre ecumenismo, fidelidade à proposta cristã e
envolvimento com as necessidades humanas básicas.
Fonte: CNBB
Foto retirada da internet
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