O conhecimento das letras
é bom para a instrução, mas o conhecimento da própria fraqueza é mais útil para
a salvação. (S. Bernardo de Claraval)
Aqui estou para
cumprir o que vos prometi; aqui estou para satisfazer vosso desejo; aqui estou,
também, obrigado pela dívida que tenho para com Deus, a Quem sirvo.
Como vedes, três são as razões que me impelem a pregar: o compromisso
assumido, o amor fraterno e o temor a Deus.
Se me abstivesse de falar, pela minha boca condenar-me-ia. Mas o que acontece
se eu falar? Também neste caso, corro
o mesmo risco, o de ser condenado pela minha própria boca: por pregar e não praticar o que prego.
Ajudai-me,
pois, com vossas orações, para que eu possa sempre falar o que é necessário e,
com minha conduta, praticar o que prego.
Tinha vos anunciado o tema do sermão de hoje: a ignorância, ou
melhor, as ignorâncias, porque, como
lembrais, há
duas ignorâncias: a de nós próprios e a de Deus. E vos aconselhava a evitar uma e outra, pois ambas são
perdição.
Hoje, procuraremos esclarecer melhor esse assunto. Antes,
porém, discutiremos se toda ignorância é condenável. Parece-me que não, pois nem toda ignorância
produz perdição: há muitas e mesmo inúmeras coisas que se podem
ignorar sem problema algum para a salvação.
Se alguém, por exemplo, desconhece artes mecânicas, como a
carpintaria, a arte de edificação e outras que são exercidas para a utilidade
da vida neste mundo, acaso tal ignorância constitui obstáculo para a salvação?
Também muitos são os que se salvaram e agradaram a Deus pela
sua conduta e com seus atos sem as artes liberais (e, certamente, são úteis e moralmente bons esses
estudos). Quantos não enumeram a Epístola aos Hebreus (cap. XI), que se tornaram agradáveis a Deus não com erudição, "mas com
consciência pura e fé sincera" (1Tim
1,5). E agradaram a Deus com os méritos de sua vida e não com os de seu
saber. Cristo
não foi buscar Pedro, André, os filhos de Zebedeu e todos os outros discípulos,
entre filósofos; nem em escola de retórica e, no entanto, valeu-se deles para
realizar a salvação na terra.
Não é porque fossem mais sábios do que todos os homens - como diz de si mesmo o Eclesiastes (1,16), mas, por causa de sua fé e de sua
benignidade, o Senhor os salvou e fez deles santos e mestres. Pois os Apóstolos
mostraram ao mundo o caminho da vida, não com sublimidade de discurso, nem com
palavras eloquentes de sabedoria humana, mas pelo modo como aprouve a Deus: pela estultícia de sua pregação, aprouve a Deus
salvar os que creem, porquanto o mundo com sua sabedoria não O conheceu (1Cor 2,1; 1,17-21).
Posso estar dando a
impressão de querer lançar em descrédito o saber, de repreender os doutos, de
proibir o estudo das letras. Longe de mim, tal atitude! Conheço muito bem o
inestimável serviço que os homens doutos têm prestado à Igreja: seja refutando
os adversários dela, seja na instrução dos simples.
Com efeito, o que li na Sagrada Escritura foi: "Como rejeitaste o saber, também Eu te rejeitarei, para que
não exerças Meu sacerdócio" (Os
4,6). E mais: "Os doutos resplandecerão com o brilho do firmamento, e os que
tiverem ensinado a muitos a justiça, brilharão como estrelas em perpétuo
resplendor" (Dn 12,3).
Mas, por outro lado, li também: "O saber incha" (1Cor
8,1). E, finalmente: "No acúmulo de saber, acumula-se a dor" (Ecl 1,18).
Vede que há saberes e saberes: há um saber que produz o
inchaço e há um saber que contrista. Quero que sejais
capazes de distinguir qual deles é útil e necessário para a salvação:
o que incha ou o que dói?
E não duvido que prefiras o que aflige ao que incha, porque,
se a saúde pela inchação é aparentada, pela aflição é procurada.
Ora, quem procura, acaba encontrando, pois "quem pede,
recebe" (Lc 11,10). E é certo que
Aquele que cura os que têm o coração contrito abomina o inchaço dos orgulhosos,
pois a Sabedoria diz: "Deus resiste aos soberbos e dá Sua graça aos humildes"
(Tg 4,6). E o Apóstolo diz: "Exorto-vos, em
virtude do ministério que pela graça me foi dado, a não pretender saber mais do
que convém, mas saber com sobriedade" (Rom 12,3).
O Apóstolo não proíbe saber, mas sim saber mais do que
convém.
E o que é saber com
sobriedade?
É cuidar de aplicar-se prioritariamente ao que mais
interessa saber, pois o tempo é breve. Ora,
ainda que todo saber, desde que submetido à verdade, seja bom, tu,
que buscas com temor e tremor a salvação e a buscas apressadamente, dada a
brevidade do tempo, deves aplicar-te a saber, antes e acima de tudo, o que
conduz mais diretamente à salvação.
Acaso não dizem os médicos
do corpo que parte da medicina é precisamente determinar a ordem dos alimentos:
qual deve ser ingerido antes, qual depois e o modo de os ingerir? Ora, mesmo
sendo bons os alimentos que Deus criou, tu os tornas nocivos se não observas o
modo e a ordem ao ingeri-los. Aplica, pois, aos saberes, o que dissemos dos
alimentos.
Mas o melhor é encaminhar-vos ao Mestre. Não é nossa esta sentença, mas dEle; ou antes, é
nossa porque a aprendemos dAquele que é a Verdade. E diz: "Se alguém pensa que
sabe alguma coisa, ainda não sabe como deveria saber" (1Cor
8,2).
Vede como não é aprovado o saber muitas coisas se se
ignora o modo de saber. Vede como o fruto e a utilidade do saber
consiste no modo de saber.
Mas o que é este modo de
saber?
O que, senão saber segundo a
ordem, o amor e o fim devidos?
Segundo a ordem, isto é, priorizando o que é
mais necessário para a salvação; segundo o amor, isto é, voltando-nos mais
ardentemente para o que mais nos impele a amar; segundo o fim: não por vaidade
ou curiosidade ou objetivos semelhantes, mas somente pela tua própria
edificação e pela de teu próximo.
Há quem busque o saber por
si mesmo,
conhecer por conhecer:
é uma indigna curiosidade.
Há quem busque o saber só
para poder exibir-se:
é uma indigna vaidade.
Estes não escapam à mordaz sátira que diz: "Teu saber nada é,
se não há outro que saiba que sabes" (Persius, Satyra 1,27).
Há quem busque o saber
para vendê-lo por dinheiro
ou por honras:
é um indigno tráfico.
Mas há quem busque o saber
para edificar,
e isto é amor.
E há quem busque o saber
para se edificar,
e isto é prudência.
São
Bernardo de Claraval
Sermão
36 sobre o Cântico dos Cânticos - trad. Jean Lauand
Foto retirada da internet
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Ricardo Feitosa e Marta Lúcia
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