terça-feira, 1 de março de 2016

Liturgia Diária 06/03/2016 4º Domingo da Quaresma

Primeira Leitura: Livro de Josué 5,9a.10-12
Naqueles dias, o Senhor disse a Josué: “Hoje tirei de cima de vós o opróbrio do Egito”. Os israelitas ficaram acampados em Guilgal e celebraram a Páscoa no dia catorze do mês, à tarde, na planície de Jericó. No dia seguinte à Páscoa, comeram dos produtos da terra, pães sem fermento e grãos tostados nesse mesmo dia. O maná cessou de cair no dia seguinte, quando comeram dos produtos da terra. Os israelitas não mais tiveram o maná. Naquele ano comeram dos frutos da terra de Canaã. - Palavra do Senhor. 


Comentário: A leitura fala-nos do início de uma nova vida do povo eleito, após a longa e dura travessia do deserto. O facto de ter sido escolhida para este tempo, em que o deserto da Quaresma caminha para o seu fim, pode ter um significado simbólico, ligado ao Evangelho do filho pródigo: o regresso à casa paterna, a conversão, o começo de uma vida nova. 9 «Vexame do Egito». Este pode ser a incircuncisão, de acordo com o contexto (notar que foram aqui suprimidos os vv. 6-8), em que se fala de que Josué procedeu então à circuncisão dos filhos daqueles que tinham saído do Egito, embora também os egípcios a tivessem praticado. Outros autores pensam que o vexame do Egito seria a escravidão lá sofrida e as consequentes privações do deserto. 10 «Guilgal». A localização desta Guilgal é incerta, mas supõe-se que ficasse nas proximidades de Jericó. No texto hebraico há um jogo de palavras que podíamos transpor para português da seguinte maneira: «Em Guigal eu fiz o povo galgar o vexame do Egito». Com efeito, em hebraico gálgal significa roda, e o verbo aqui usado (gallóthi) significa pus a rodar, isto é, «afastei» ou «tirei». 11 «No dia seguinte à Páscoa», isto é, a 16 do mês de Nisan, de acordo com a Lei (cf. Lev 23,4-14); após a oferta a Deus do primeiro feixe de trigo, já o povo podia começar a comer o trigo novo, ainda quase todo verde. Ainda hoje a gente do campo na Síria e no Egito gosta de comer, quando ainda verde, o grão de trigo assado. (presbiteros.com.br) 

Salmo: 33,2-3.4-5.6-7 (R.9a) Provai e vede quão suave é o Senhor!
Bendirei o Senhor Deus em todo o tempo, seu louvor estará sempre em minha boca. Minha alma se gloria no Senhor; que ouçam os humildes e se alegrem!

Comigo engrandecei ao Senhor Deus, exaltemos todos juntos o seu nome! Todas as vezes que o busquei, ele me ouviu, e de todos os temores me livrou.

Contemplai a sua face e alegrai-vos, e vosso rosto não se cubra de vergonha! Este infeliz gritou a Deus e foi ouvido, e o Senhor o libertou de toda angústia.

Segunda Leitura: Segunda Carta de São Paulo aos Coríntios 5,17-21
Irmãos: Se alguém está em Cristo, é uma criatura nova. O mundo velho desapareceu. Tudo agora é novo. E tudo vem de Deus, que, por Cristo, nos reconciliou consigo e nos confiou o ministério da reconciliação. Com efeito, em Cristo, Deus reconciliou o mundo consigo, não imputando aos homens as suas faltas e colocando em nós a palavra da reconciliação. Somos, pois, embaixadores de Cristo, e é Deus mesmo que exorta através de nós. Em nome de Cristo, nós vos suplicamos: deixai-vos reconciliar com Deus. Aquele que não cometeu nenhum pecado, Deus o fez pecado por nós, para que nele nós nos tornemos justiça de Deus. - Palavra do Senhor.

Comentário: Já nas Cinzas, tivemos parte desta leitura. S. Paulo ao fazer a sua defesa perante as acusações dos seus opositores em Corinto, exalta a grandeza do ministério apostólico de que está investido, um ministério de reconciliação com Deus alcançada pelo mistério da Morte e Ressurreição de Cristo (5,14-15). 17 «Nova criatura». Pelo Baptismo dá-se uma transformação radical – regeneração interior (cf. Jo 3,5) – do homem velho (cf. Rom 6, 6; Gal 6, 15; Col 3, 9; Ef 2, 15; Tit 3,5). Dá-se como que uma nova criação, no plano da graça, pois passa-se do não ser, do nada e menos que nada (o pecado: «as coisas antigas») para «estar em Cristo», participando da sua vida divina. 18 «Ministério da reconciliação». O contexto não permite que se interprete este ministério no sentido estrito do ministério do perdão exercido no Sacramento da Penitência, embora este se possa ver englobado no conjunto (boa ocasião para rever o motu próprio Misericórdia Dei de João Paulo II, sobre alguns aspectos do Sacramento da Penitência, de 7 de Abril de 2002, que quase passou despercebido). 20 «Reconciliai-vos com Deus». É este o insistente convite que a Igreja nos faz em nome de Deus, a mesma exortação que fazia S Paulo, com a plena consciência de que era Deus que exortava por seu intermédio, pois os Apóstolos, como os demais ministros de Cristo, são «embaixadores ao serviço de Cristo», e não apenas ao seu serviço, mas atuando em vez de Cristo e por autoridade de Cristo, como o texto original parece dar a entender com o uso da preposição grega ypér (em favor de, usada no sentido da preposição antí, em vez de; cf. Jo 11,50; Gal 3,13; etc.), como já referimos na Quarta-feira de Cinzas. 21 «Deus identificou-o com o pecado», à letra, Deus fê-lo pecado, uma expressão extraordinariamente forte e chocante. Note-se, no entanto, que não se diz que Deus O tenha feito pecador; o que se pretende significar é que Deus permitiu que Jesus viesse a sofrer o castigo que cabia ao pecado. Trata-se aqui duma identificação jurídica, não moral: Cristo tornando-Se a Cabeça e o Chefe duma raça pecadora, toma sobre os seus ombros a responsabilidade, não a de uns pecados alheios, mas a dos pecados da sua raça (de toda a Humanidade), para os expiar, sofrendo a pena devida por eles (cf. Gal 3,13). O texto torna-se menos duro, se entendemos que Cristo se fez pecado, no sentido de que se fez sacrifício pelo pecado; isto, que pode parecer uma escapatória para evitar a dificuldade de interpretação, tem um certo fundamento no substrato hebraico, pois a palavra ’axam tem este duplo sentido de «violação da justiça» e de «sacrifício de reparação pelo pecado»; com efeito, pelo sacrifício de Cristo tornamo-nos «justiça de Deus», isto é, justos diante de Deus (note-se o jogo com os dois substantivos abstratos – pecado/justiça –, num evidente paralelismo antitético, tão do gosto paulino). (presbiteros.com.br)

Evangelho: Evangelho de Jesus Cristo segundo Lucas 15,1-3.11-32
Naquele tempo, os publicanos e pecadores aproximavam-se de Jesus para o escutar. Os fariseus, porém, e os mestres da Lei criticavam Jesus: “Este homem acolhe os pecadores e faz refeição com eles”.

Então Jesus contou-lhes esta parábola: “Um homem tinha dois filhos. O filho mais novo disse ao pai: ‘Pai, dá-me a parte da herança que me cabe’. E o pai dividiu os bens entre eles. Poucos dias depois, o filho mais novo juntou o que era seu e partiu para um lugar distante. E ali esbanjou tudo numa vida desenfreada. Quando tinha gasto tudo o que possuía, houve uma grande fome naquela região, e ele começou a passar necessidade. Então foi pedir trabalho a um homem do lugar, que o mandou para seu campo cuidar dos porcos. O rapaz queria matar a fome com a comida que os porcos comiam, mas nem isto lhe davam. Então caiu em si e disse: ‘Quantos empregados do meu pai têm pão com fartura, e eu aqui, morrendo de fome. Vou-me embora, vou voltar para meu pai e dizer-lhe: Pai, pequei contra Deus e contra ti; já não mereço ser chamado teu filho. Trata-me como a um dos teus empregados’. Então ele partiu e voltou para seu pai. Quando ainda estava longe, seu pai o avistou e sentiu compaixão. Correu-lhe ao encontro, abraçou-o e cobriu-o de beijos. O filho, então, lhe disse: ‘Pai, pequei contra Deus e contra ti. Já não mereço ser chamado teu filho’. Mas o pai disse aos empregados: ‘Trazei depressa a melhor túnica para vestir meu filho. E colocai um anel no seu dedo e sandálias nos pés. Trazei um novilho gordo e matai-o. Vamos fazer um banquete. Porque este meu filho estava morto e tornou a viver; estava perdido e foi encontrado’. E começaram a festa.

O filho mais velho estava no campo. Ao voltar, já perto de casa, ouviu música e barulho de dança. Então chamou um dos criados e perguntou o que estava acontecendo. O criado respondeu: ‘É teu irmão que voltou. Teu pai matou o novilho gordo, porque o recuperou com saúde’. Mas ele ficou com raiva e não queria entrar. O pai, saindo, insistia com ele. Ele, porém, respondeu ao pai: ‘Eu trabalho para ti há tantos anos, jamais desobedeci a qualquer ordem tua. E tu nunca me deste um cabrito para eu festejar com meus amigos. Quando chegou esse teu filho, que esbanjou teus bens com prostitutas, matas para ele o novilho cevado’.  Então o pai lhe disse: ‘Filho, tu estás sempre comigo, e tudo o que é meu é teu. Mas era preciso festejar e alegrar-nos, porque este teu irmão estava morto e tornou a viver; estava perdido, e foi encontrado’. - Palavra da Salvação.

Comentários:

É flagrante o contraste entre a misericórdia do pai que recebe o filho arrependido de volta à casa paterna, e a mesquinhez do filho mais velho. A alegria contagiante de um choca-se com a irritação do outro. A capacidade de perdoar de um não corresponde à dureza de coração do outro. A largueza de visão de um não bate com o egoísmo do outro. A parábola do pai cheio de amor - Deus - é uma aberta denúncia a determinado tipo de cristãos que, fechados na segurança de sua vida devota, acabam por cultivar atitudes contrárias ao modo de ser divino. Entre elas, a incapacidade de se alegrar com a conversão dos pecadores, quiçá preferindo que continuem em seu meu caminho, a fim de não se misturarem com os que se consideram justos diante de Deus. Tais pessoas parecem cultivar um desejo mórbido de ver os pecadores devidamente castigados por suas faltas. Tudo pelo falso orgulho de se julgarem perfeitos e impecáveis diante de Deus. Pensando bem, embora tendo permanecido na casa paterna, também o filho mais velho deveria passar por um processo de conversão. Sua recusa em alegrar-se com a volta do irmão manifestou o quanto estava distante do pai. A proximidade física não correspondia à proximidade espiritual. Estava mais distante do pai do que o filho mais novo, em sua fase de vida desregrada. Por isto, devia, ele também, empreender o caminho de volta para a casa paterna. (Padre Jaldemir Vitório/Jesuíta)

Estamos diante de uma das páginas mais conhecidas da literatura mundial: a parábola vulgarmente conhecida como “do filho pródigo”. Um filho, ainda jovem cobra a herança de um pai que ainda vivia e sai pelo mundo em busca de aventuras. Fracassado, na miséria, sem amigos, invejoso da comida dos porcos, o filho decide penosamente voltar ao lar, disposto mesmo a ser tratado como simples empregado da casa, já que, de certo modo, abrira mão de sua filiação. Vários comentaristas já denunciaram a impropriedade do título dado à parábola, que põe em destaque o filho fujão. Um deles – Joachim Jeremias – propõe o título de “parábola do amor do Pai”. E com razão, pois se há um pródigo (isto é, gastador, esbanjador) nessa história, trata-se do Pai, que distribui seu amor sem limites, sem economizar nada, além de toda imaginação humana. No caminho de volta, o jovem havia preparado um discurso de arrependido, na tentativa de comover o pai a quem abandonara e – quem sabe? – ser novamente acolhido em casa. Em sua fala, ele reconhece a própria indignidade: “Já não sou digno de ser tratado como filho”... Para sua surpresa, a resposta do Pai não se refere ao binômio digno x indigno, mas prende-se à relação entre pai e filho. É como se o Pai dissesse: “Meu filho, tu me pedes o impossível: tratar-te como empregado? Veja bem: enquanto eu for Pai, tu serás sempre meu Filho!” Sim, é da natureza de nosso Deus ser Pai. Ao contrário de nós, que nos tornamos pais a partir do momento em que nasce nosso primeiro filho, Deus é eternamente Pai, na comunidade familiar da Trindade. Assim – e o pai da parábola é imagem evidente de Deus Pai! -, nossa filiação não depende de alguma suposta “dignidade” de nossa parte; ao contrário, por mais indignos que nos tornemos, permanecemos filhos eternamente, pois Deus é nosso Pai eterno. Na justiça meramente humana as coisas são bem diferentes. Um erro grave ou um pecado sério bastam para manchar em definitivo a reputação de alguém, denegrir sua imagem. Nesse mundo, os honestos se sentem superiores aos criminosos e aos pecadores. E se esquecem de que o céu – fechado desde a Queda Original, portões guardados pela espada de fogo de um querubim! – acabaria reinaugurado por um ladrão (cf. Lc 23,43). Ladrão, sim, mas perdoado. Criminoso, sim, mas arrependido. Seria impróprio, no céu, encontrar um Pai em vez de um Juiz? (Antônio Carlos Santini / Com Católica Nova Aliança)

TEMPO LITÚRGICO: QUARESMA

Fonte: CNBB - Missal Cotidiano (Paulus)
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Ricardo Feitosa e Marta Lúcia
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