"Enviais vosso Espírito e tudo é criado e renovais a
face da terra" (Sl 103,30); "Criai em mim, ó Deus, um coração puro,
renovai em mim um espírito firme" (Si 50,12); é a oração de todos nós, que
desejamos ser diferentes, tornar-nos melhores. O desejo de mudar de atividade,
de casa, de vestes, oculta a vontade de mudarmos a nós mesmos juntamente com o
objeto dos nossos desejos. No entanto, cristãos de nascimento, tão habituados a
este nome, custamos a perceber a novidade radical em que nos introduz a fé em
Jesus Cristo. A salvação trazida por Cristo se apresenta com um caráter de
"novidade" com a qual jamais nos deveríamos habituar.
A novidade de vida é um dom
Uma afirmação muito repetida mas que não perde a eficácia:
não basta observar a lei para ser justo diante de Deus. O fariseu observante
não pode atirar a pedra contra a adúltera, como não pode fazê-lo o cristão
praticante. E o quadro termina por inverter-se; onde há miséria, uma pessoa
curvada sob o peso de suas culpas, aí é que se faz o dom de uma "vida
nova", de salvação (evangelho). Salvação gratuita para a adúltera e
salvação inesperada para um
povo humilhado na deportação forçada. "Eis que vou
realizar uma coisa nova: já desponta... traçarei no deserto uma estrada, farei
nascer rios na terra árida" (1ª leitura). Para o israelita deportado e
desanimado era difícil esperar ainda, mas a palavra do profeta estimula a
descobrir nos últimos acontecimentos a intervenção de Deus, que está para
realizar uma coisa nova; o passado e a própria libertação do Egito serão
superados pela nova realidade.
Esta ação criadora de Deus, que reaviva o que é
deserto e faz jorrar águas abundantes do solo árido, torna-se realidade no
encontro com o Cristo. Jesus é aquele que das trevas faz surgir o universo de
luz, de uma pecadora adúltera faz uma mulher que crê, com uma massa de
pecadores constrói seu povo, a Igreja. A palavra não peques mais"
(evangelho) é palavra de libertação e de novidade. Lembra a passagem do mundo
do mal para um mundo novo pela força de Cristo. Cumulando nossa esperança para além
de toda expectativa, Jesus formou a família de Deus, em que todos os homens
entram como filhos. Ele é o primogênito do Reino, que veio para abrir-nos o
caminho, indicar-nos o itinerário de novidade que leva à felicidade.
Vida nova é optar por morrer
Somos o povo que Deus formou para si, porque Deus irrigou
com a sua água o deserto da nossa vida (1ª leitura). A adúltera é a Igreja. A
água do batismo é novidade de vida. E Cristo nos repete: "Vai e de agora
em diante não peques mais"; viver o próprio batismo, pelo qual fomos
unidos a Cristo, é, para Paulo, sacrificar tudo para ganhar a Cristo.
Participar de seu sofrimento, tornar-nos conformes a sua morte, para alcançar a
ressurreição dos mortos, experimentando a força da sua ressurreição. A opção pelo
caminho do próprio fracasso se torna opção pela ressurreição.
Lançar a pedra é cômodo
O "farisaísmo" é a doença de quem não se olha no
espelho. Todo rosto tem rugas, e por detrás de uma fachada restaurada
ocultam-se manchas escuras.
Entretanto, em todos nós existe o sentimento de culpa.
Existe um sentimento de culpa exacerbado, resultado de um formalismo legalista,
de aspectos inconscientes, de educação ilusória. Mas há também um sentimento de
culpa que põe o dedo na chaga. As chagas ardem e causam nojo; também aquelas
que comprometem toda a sociedade. A prostituição, a delinquência juvenil, a
droga, as mães solteiras. Há as responsabilidades pessoais de quem se deixa
explorar e há a responsabilidade de quem explora; é uma sociedade sem valores.
Também a nós faltam os valores, mas é mais cômodo libertar-se dessa crise de
valores procurando bodes expiatórios. E é fácil encontrá-los. A satisfação de
lançar a pedra nos faz esquecer quem somos, nos liberta de nossa
responsabilidade e do sentimento de culpa. Assim, fazem-se campanhas contra a
prostituição, para que as ruas estejam "limpas"; marginalizam-se os
drogados, para que não possam censurar a nossa inutilidade. Fazem-se casas de
correção, para dizermos a nós mesmos que fazemos o possível. Escondemos o
espelho para não vermos mais o nosso rosto, e assim pensamos estar limpos.
Mas não há apenas esse farisaísmo em grande escala. A
satisfação de poder dizer que não somos como a vizinha, ou como o colega de
trabalho, é coisa de todos os dias, ou como quando, voltando da missa de
domingo, olhamos com desconfiança para aquele que só tem recebido da vida
situações humilhantes ou que continua a pagar na solidão os erros de sua vida.
O desprezo que lhes tributamos é, para Cristo, acusação contra nós, e seu sofrimento
se torna sofrimento de Cristo.
Primeira Leitura: Is 43,16-21 - Salmo: 125,1-2ab.2cd-3.4-5.6
(R. 3) - Segunda Leitura: Fl 3,8-14 - Evangelho: Jo 8,1-11
Fonte:
Missal Dominical (Paulus)
Foto retirada da internet
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Ricardo Feitosa e Marta Lúcia
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Os homens da Igreja encaram Jo 8,1-11 naturalmente como se o choque de consciência dos "mais velhos" fosse suficiente para "cair em si" e desistir da lapidação da mulher. Mas a julgar pelo colossal cinismo reinante no meio judeu esse choque pode ter, muito bem, sido insuficiente. Os homens da Igreja não sabem o que Jesus escrevia no chão. Não se lembraram de que pode ter a haver com o desfecho do caso. Ou não é verdade que, pouco antes, louvavam Jesus entrando na cidade e, pouco tempo depois, gritavam "crucifica-o" numa atitude pusilânime?
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