domingo, 26 de junho de 2016

Liturgia Comentada 03/07/2016 domingo 14ª Semana do Tempo Comum

Primeira Leitura: Atos dos Apóstolos 12,1-11

Naqueles dias, o rei Herodes prendeu alguns membros da Igreja para torturá-los. Mandou matar à espada Tiago, irmão de João. E, vendo que isso agradava aos judeus, mandou também prender a Pedro. Eram os dias dos Pães ázimos. “Depois de prender Pedro, Herodes colocou-o na prisão, guardado por quatro grupos de soldados, com quatro soldados cada um. Herodes tinha a intenção de apresentá-lo ao povo, depois da festa da Páscoa.

Enquanto Pedro era mantido na prisão, a Igreja rezava continuamente a Deus por ele.

Herodes estava para apresentá-lo. Naquela mesma noite, Pedro dormia entre dois soldados, preso com duas correntes; e os guardas vigiavam a porta da prisão. Eis que apareceu o anjo do Senhor e uma luz iluminou a cela. O anjo tocou o ombro de Pedro, acordou-o e disse: “Levanta-te depressa!” As correntes caíram-lhe das mãos.




O anjo continuou: “Coloca o cinto e calça tuas sandálias!” Pedro obedeceu e o anjo lhe disse: “Põe tua capa e vem comigo!” Pedro acompanhou-o, e não sabia que era realidade o que estava acontecendo por meio do anjo, pois pensava que aquilo era uma visão. Depois de passarem pela primeira e segunda guarda, chegaram ao portão de ferro que dava para a cidade. O portão abriu-se sozinho. Eles saíram, caminharam por uma rua e logo depois o anjo o deixou. Então Pedro caiu em si e disse: “Agora sei, de fato, que o Senhor enviou o seu anjo para me libertar do poder de Herodes e de tudo o que o povo judeu esperava!” - Palavra do Senhor.

Comentário: Os Atos dos Apóstolos nos dão uma informação que se tornara uma prática comum do império romano em relação aos cristãos: os discípulos são martirizados, mortos pela espada ou encarcerados, o que agradava aos judeus (v. 3). Pedro, preso pela terceira vez por ordem de Herodes Agripa I, esperava o momento de sua morte, possivelmente após a festa da Páscoa. Era noite. Um anjo do Senhor, isto é, Deus mesmo, vem ao seu encontro. Miraculosamente, as correntes se rompem e as portas se abrem. Pedro, iluminado por uma luz, é convocado a pôr-se de pé, vestir-se e calçar as sandálias. Nesse episódio, destacam-se algumas relações simbólicas. Pedro havia negado Jesus três vezes (Mt 26,69-75) e, outras três, sido interrogado por ele sobre se o amava (Jo 21,14-17); aqui se repete três vezes a informação de sua prisão por anunciar Jesus ressuscitado. O número três nos remete à manifestação de fé judaica do Shemá Israel de Dt 6,4-9: “Escuta, ó Israel, amarás o Senhor, teu Deus, com todo o teu coração, teu ser e tuas posses (cf. Faria, 2001, p. 52). A luz é a presença de Deus, outrora manifestada no Sinai. O anjo é também a presença de Deus, que, tendo salvado seu Filho da morte, fez o mesmo com Pedro. O anjo convida Pedro a assumir a postura de missionário: levantar-se, cingir-se e partir. Portas fechadas serão abertas, apesar dos inúmeros guardas presentes. A comunidade, que se mantinha unida na fé, percebe a ação de Deus que caminha com ela. Pedro é exemplo de fé e de esperança para todos. Depois desses eventos, Lucas e a comunidade de Atos silenciam sobre a vida de Pedro. Os capítulos seguintes tratarão de outro grande apóstolo, Paulo. Assim, os Atos dos Apóstolos narram atos de Pedro e Paulo mais que dos apóstolos, como sugere o título do livro. Fato que também comprova a importância colossal dessas duas personagens primevas do cristianismo. (Frei Jacir de Freitas Faria, ofm, Vida Pastoral nº 278 ©Paulus 2011)

Salmo: 33(34),2-3.4-5.6-7.8-9 (R. 5)
De todos os temores me livrou o Senhor Deus

Bendirei o Senhor Deus em todo o tempo, seu louvor estará sempre em minha boca. Minha alma se gloria no Senhor; que ouçam os humildes e se alegrem!

Comigo engrandecei ao Senhor Deus, exaltemos todos juntos o seu nome! Todas as vezes que o busquei, ele me ouviu, e de todos os temores me livrou.

Contemplai a sua face e alegrai-vos, e vosso rosto não se cubra de vergonha! Este infeliz gritou a Deus, e foi ouvido, e o Senhor o libertou de toda angústia.

O anjo do Senhor vem acampar ao redor dos que o temem, e os salva. Provai e vede quão suave é o Senhor! Feliz o homem que tem nele o seu refúgio!

Segunda Leitura: Segunda Carta de São Paulo a Timóteo 4,6-8.17-18

Caríssimo, quanto a mim, eu já estou para ser derramado em sacrifício; aproxima-se o momento de minha partida. Combati o bom combate, completei a corrida, guardei a fé. Agora está reservada para mim a coroa da justiça, que o Senhor, justo juiz, me dará naquele dia; e não somente a mim, mas também a todos os que esperam com amor a sua manifestação gloriosa.

Mas o Senhor esteve a meu lado e me deu forças, ele fez com que a mensagem fosse anunciada por mim integralmente, e ouvida por todas as nações; e eu fui libertado da boca do leão. O Senhor me libertará de todo mal e me salvará para o seu Reino celeste. A ele a glória, pelos séculos dos séculos! Amém. - Palavra do Senhor.

Comentário: Essa leitura é uma das páginas de rara beleza literária da Bíblia. Paulo, assim como Pedro, tem consciência de que sua hora está chegando. Sabedor disso, afirma: “Combati o bom combate, terminei a minha corrida, conservei a fé” (v. 7). Paulo sabe que, assim como o mestre, que foi abandonado diante dos tribunais (Mt 26,31), ele deveria perdoar a todos (v. 16). E, além disso, testemunhar o Ressuscitado a todos os povos (v. 17b). A imagem simbólica de um Paulo esportista é fenomenal. Paulo, “o pequeno”, foi um lutador na fé. Ele caminha para a morte, para o martírio, sabendo que o mesmo Senhor Jesus, que sempre esteve ao seu lado, o salvará e o levará para a glória do seu reino celestial (vv. 17-18). A coroa de sua vitória olímpica é outra, a da justiça e da imortalidade. Paulo tornou-se um atleta imortal do Ressuscitado, jamais esquecido pelos guerreiros cristãos de ontem e de hoje. Um símbolo que permanece vivo no meio de nós. (Frei Jacir de Freitas Faria, ofm, Vida Pastoral nº 278 ©Paulus 2011)

Evangelho de Jesus Cristo segundo Mateus 16,13-19

Jesus foi à região de Cesareia de Filipe e ali perguntou aos seus discípulos: “Quem dizem os homens ser o Filho do Homem?” Eles responderam: “Alguns dizem que é João Batista; outros que é Elias; outros ainda, que é Jeremias ou algum dos profetas”.

Então Jesus lhes perguntou: “E vós, quem dizeis que eu sou?” Simão Pedro respondeu: “Tu és o Messias, o Filho do Deus vivo”.  Respondendo, Jesus lhe disse: “Feliz és tu, Simão, filho de Jonas, porque não foi um ser humano que te revelou isso, mas o meu Pai que está no céu. Por isso eu te digo que tu és Pedro, e sobre esta pedra construirei a minha Igreja, e o poder do inferno nunca poderá vencê-la. Eu te darei as chaves do Reino dos Céus: tudo o que tu ligares na terra será ligado nos céus; tudo o que tu desligares na terra será desligado nos céus”. - Palavra da Salvação.

Comentários:

A missão de liderança confiada a Pedro exigiu dele uma explicitação de sua fé. Antes de assumir o papel de guia da comunidade, foi preciso deixar claro seu pensamento a respeito de Jesus, de forma a prevenir futuros desvios. Se tivesse Jesus na conta de um messias puramente humano, correria o risco de transformar a comunidade numa espécie de grupo guerrilheiro, disposto a impor o Reino de Deus a ferro e fogo. A violência seria o caminho escolhido para fazer o Reino acontecer. Se o considerasse um dos antigos profetas reencarnados, transformaria a Boa-Nova do Reino numa proclamação apocalíptica do fim do mundo, impondo medo e terror. De fato, pensava-se que, no final dos tempos, muitos profetas do passado haveriam de reaparecer. Se a fé de Pedro fosse imprecisa, não sabendo bem a quem havia confiado a sua vida, correria o risco de proclamar uma mensagem insossa, e levar a comunidade a ser como um sal que perdeu seu sabor, ou uma luz posta no lugar indevido. Só depois que Pedro professou sua fé em Jesus, como o “Messias, o Filho do Deus vivo”, foi-lhe confiada a tarefa de ser “pedra” sobre a qual seria construída a comunidade dos discípulos: a sua Igreja. Entre muitos percalços, esse apóstolo deu provas de sua adesão a Jesus, selando o seu testemunho com a própria vida, demonstração suprema de sua fé. Portanto, sua missão foi levada até o fim. (Padre Jaldemir Vitório/Jesuíta)

O evangelho de hoje se inicia com uma pergunta de Jesus sobre o que o povo pensava sobre ele e termina com Pedro sendo instituído como liderança, referência para a Igreja primitiva. Em Cesareia de Filipe, longe do poder político e econômico, Jesus lança a pergunta: “Quem sou para o povo e para vocês, meus discípulos?” O povo, respondem os discípulos, diz que tu és João Batista, Elias, Jeremias ou um dos profetas. Ao que Pedro, de forma contundente, toma a palavra e lhe diz: “Tu és o Messias, o Filho de Deus vivo” (v. 16). Essas opiniões eram importantes para Jesus e para a comunidade de Mateus, que, ao escrever o seu evangelho, via nelas um dos pontos cruciais de sua narrativa: a messianidade de Jesus. Ademais, elas demonstram a relação entre Jesus e a tradição de Israel. A menção ao profeta Elias revela a importância dele para os judeus. Segundo a tradição, ele, após ter ido ao céu em um carro de fogo (2Rs 2,1-18), voltaria. Na celebração do jantar de Páscoa, os judeus reservam-lhe um lugar especial. No final, solenemente, a porta da casa é aberta para receber Elias no convívio familiar. A novidade, no entanto, é a resposta de Pedro. A convivência com o mestre lhe deu a certeza de ser ele o Messias, o Cristo, o ungido, o Filho de Deus vivo (v. 16). Da resposta de Pedro emergem outras relações simbólicas: ele recebe as chaves do reino; é confirmado como liderança do grupo; é chamado de pedra e gruta, sob e sobre a qual seria edificada a Igreja, a comunidade que nasceria do seu seguimento. Analisemos este último simbolismo. Jesus lhe diz: “Tu és Kepha (Cefas), e sobre ela edificarei a minha Igreja”. Qual é o significado das palavras de Jesus a Pedro, ao referir-se ao seu nome como pedra, em aramaico Kepha? Esse substantivo não teria também outra significação? Vejamos. Naquele tempo, o povo tinha o costume de escavar as rochas para daí tirar pedras para construir casas. Os buracos formados nas rochas recebiam, na língua familiar, o aramaico, o nome de Kepha. Daí que Kepha pode ser também entendido como gruta escavada na rocha. Aos pobres restava o infortúnio de morar nessas cavernas ou grutas. Kepha traduz também o substantivo grego Pétros (Pedro). Então Pedro não significa pedra? Sim, mas, tomado no sentido anterior, pode significar gruta escavada na rocha. Desse modo, Jesus, então, teria dito a Pedro: “Tu és gruta escavada na rocha, e sob essa gruta, onde vivem os pobres, aí edificarei a minha Igreja” (cf. Faria, 2010b, p. 28-31). Considerando o que foi dito acima, há espaço para duas afirmações hermenêuticas plausíveis: a) Pedro representa a rocha, a pedra da nova comunidade de fé, que sabe quem é Jesus e quer anunciá-lo e vivenciá-lo, tendo Pedro como seu líder; b) Pedro é a Igreja dos pobres que vivem nas grutas de ontem e nas favelas e barracos de hoje, lugar onde a Igreja deveria estar mais presente, mas, infelizmente, do qual está cada vez mais se distanciando. Outras Igrejas proliferam porque não somos capazes de dar respostas aos problemas da pós-modernidade. Não que elas também saibam, mas, pelo menos, estão mais próximas dos empobrecidos, na vivência de seus problemas econômicos e existenciais, mesmo que, muitas vezes, tirando proveito da situação. Pedro tem as chaves que abrem portas e ligam todos com o Eterno, o divino. Mais tarde, as comunidades entenderam que a liderança de Pedro foi repassada para aqueles que o sucederam, os quais receberam o nome de bispo. Destaque para o de Roma, que se tornou também papa, chefe da Igreja Católica (universal), apostólica e romana. Nisso tudo, o simbólico se torna real e o real se alimenta do simbólico. (Frei Jacir de Freitas Faria, ofm, Vida Pastoral nº 278 ©Paulus 2011)

Fonte: CNBB - Missal Cotidiano (Paulus)
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Ricardo Feitosa e Marta Lúcia      
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